Deixamos a Itália para trás

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Tenho pensado muito se deveria ou não escrever mais sobre a situação da pandemia do Novo Coronavírus no Brasil, e isso tem me feito adiar este tipo de  postagem, que já escrevi e apaguei algumas vezes, sem publicá-las. Não quero que este tema seja central aqui no blog, mas também não posso deixar de me manifestar, mesmo que isso venha a atrair alguns haters da categoria Bolsomínion.

É com certa tristeza e decepção que escrevo este post, sobretudo porque já nos aproximamos de 130 mil mortos devido a Covid 19 no país nos últimos 6 meses. Talvez a motivação tenha vindo porque um familiar não muito próximo veio a falecer por complicações desta doença no último domingo. Algumas pessoas já haviam sido infectadas, mas foi o primeiro caso de morte na família. Eu particularmente não tinha contato direto com esta pessoa há alguns anos, de modo que a notícia não chegou a me abalar fortemente, mas por ser uma pessoa relativamente jovem, e que conhecia há mais de 30 anos, me fez refletir sobre o assunto de uma maneira diferente.

A postagem é um desabafo (ou alguns podem encarar como um protesto) sobre a forma absolutamente displicente com que o nosso país vem lidando com a pandemia. O negacionismo e a politização do tema são nojentos, e seguramente contribuíram em muito para chegarmos ao posto de segundo país com maior número de mortos pela doença.

Considerando a evolução e o tamanho da população da India, é possível que venhamos a perder este posto, para ficarmos finalmente em terceiro lugar como país com mais mortos, o que não deve ser motivo de orgulho para ninguém.

Desde o começo da pandemia, o governo federal, sob ordem do presidente da república, vem tomando atitudes absolutamente incoerentes com respeito ao tratamento da doença. A forma como o presidente subestimou a doença, chamando de "gripezinha" que não causaria perigo em pessoas que como ele tem "histórico de atleta" é inaceitável em se tratando de um assunto de saúde pública em um país pobre como o nosso. Ele chegou a dizer, inclusive, que as estimativas é que teríamos cerca de 800 mortos (como mostra esta matéria de 22 de março de 2020), enquanto especialistas já apontavam para um grande risco que este número fosse muito maior. Por enquanto o número real é de cerca de 150 vezes mais, mas seguindo a tendência, é possível que o erro chegue a "apenas" 200 vezes mais mortos que o estimado pelos conselheiros do presidente.

Foram inúmeras as ocasiões em que o Presidente minimizou de forma incorreta o potencial da doença, como mostra esta postagem Veja 100 momentos em que Jair Bolsonaro minimizou a COVID-19.

Por algum tempo o governo ainda tentou esconder o sol com a peneira, dizendo que o número de mortos por milhão no Brasil era muito inferior aos países europeus, portanto, considerando o tamanho da nossa população, a nossa situação era boa. Então que no último final de semana ultrapassamos a Itália neste quesito, até então referência para o desastre da pandemia, e atualmente temos 602 mortos por milhão, contra 589 dos italianos.

Este número nos coloca na décima posição em número de mortes por milhão, atrás de países como Andorra e San Marino (que tem população de tamanho insignificante para comparação e poderiam ser considerados como parte da Espanha e Itália, respectivamente), Bélgica, Espanha e UK na Europa, além de alguns países na América do Sul. Esta situação não deve ser motivo de orgulho para ninguém, e considerando a tendência, devemos passar UK e Espanha nas próximas semanas, o que nos deixará próximo dos top 5 entre os países com população maior de 10 milhões de habitantes.

Veja a situação de hoje na imagem abaixo, extraída do site https://www.worldometers.info/coronavirus/

Fonte: https://www.worldometers.info/coronavirus/ em 09/09/2020

Ultrapassar a Itália neste quesito é emblemático, pois coloca uma pá de cal em algumas das narrativas proferidas no início da pandemia, como por exemplo o que disse em março o emblemático bolsonarista Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan, que não poderíamos pegar a Itália como exemplo, pois além de ter uma população mais idosa, a diferença na densidade demográfica entre Brasil e Itália, nos colocaria em uma situação onde não haveria a menor possibilidade de chegarmos a este número de mortes. Veja aqui o vídeo.

O ilustre comentarista da CNN Brasil, Caio Coppolla, antes de testar positivo para a doença, chegou a comparar a Covid 19 ao perigo de mortes por engasgamento nos Estados Unidos (média de 5.000 por ano), dizendo que não fazia sentido o país se mobilizar por uma doença que oferecia tanto perigo como este tipo de morte. Veja o vídeo aqui. Neste momento os EUA se aproximam de 200 mil mortes, fora o número de pessoas que foram internadas e sofreram fortes consequências desta doença.

Alguém pode vir a dizer que errar na previsão possa ter sido consequência de um inocente excesso de otimismo, mas diante de tudo que vinha acontecendo na época, e os inúmeros alertas que a situação era calamitosa, eu acredito que as diversas manifestações de autoridades e celebridades, sobretudo nas redes sociais, eram orquestradas como forma de negar a gravidade da situação e sobretudo tentar tirar proveito político deste discurso. Pode se dizer que erraram na previsão, mas na época estes discursos foram replicados e usados a torto e a direito para negar a doença o que contribuiu para agravar a situação.

Infelizmente já tivemos de tudo nestes 6 meses de enfrentamento da pandemia, mas não há como não destacar que infelizmente as sequências de negacionismo, minimização, apologia a Cloroquina, discurso contra uso de máscara e isolamento social, além politização da vacina, não ajudam em nada o país e não estão dignos de alguém que ocupa o cargo de presidente da república e deveria governar o país pensando em TODOS os brasileiros.

Hoje é difícil para as pessoas lembrarem do que realmente aconteceu, de modo que muitas pessoas consideram que o governo federal tomou boas ações para evitar a tragédia na economia e a recessão (o que aumentou a avaliação positiva do presidente), mas o fato é que a ajuda emergencial de R$ 600,00, hoje propagandeada pelo governo como a salvação da lavoura, foi proposta de apenas R$ 200,00 pelo executivo e depois foi aumentada pelo congresso para R$ 600.

Na ocasião em que foi aprovada, Carlos Bolsonaro, emblemático filho do presidente da república, chegou a afirmar que havíamos partido para o socialismo, ironizando o caráter assistencialista da medida, contrária ao discurso "liberal" dos mandatários da política econômica. Curiosamente agora o pai se beneficia do populismo da política assistencialista (lição aprendida com os populistas da esquerda sulamericana) e vem se esforçado para atrelar sua imagem ao plano que supostamente "salvou" a economia do país, além de todas as declarações e intenções de "melhorar" a vida dos pobres com programas assistencialistas mais completos e eficientes que os existentes (quanta hipocrisia!).

É certo que estamos enfrentando um dos problemas mais complexos dos últimos 50 anos, portanto espero apenas que todos fiquem bem, tanto na saúde física como financeira, apesar de nossos governantes.


12 comentários

  1. Infelizmente, Bolsonaro e Paulo Guedes vão destruir o Brasil. Lamentável termos chegado a esse ponto sendo que tudo isso era absolutamente evitável. Ambos se mostraram medíocres e pavimentam o caminho da destruição do Brasil. Amargamente arrependido do voto nesses canalhas!

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    1. Eu admito que estava torcendo para o Bolsonaro ganhar porque entendia que a alternância de poder seria positiva para o país. Na hora de votar, eu votei em BRANCO, pois apesar de achar que a chapa Bolsonaro seria a melhor entre as duas opções, eram poucos os valores coincidentes com os meus e de fato ele não me representava.
      Infelizmente a coisa foi pior do que eu imaginava ...

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  2. Correção: inicialmente não cogitaram nem mesmo os 200 reais. Era em casa, sem receber auxílio.
    Tive infectados na na família, mas POR SORTE sem falecimentos.
    Paulo Guedes está destruindo o país e tudo isso nos custará muito caro para recuperar, sobretudo com eventual reforma administrativa.
    Estranho que não se preocupam em colocar teto para gastos com juros da dívida pública, que beneficiam grandes players.
    Reforma administrativa: economia de 12 BI de reais por ano.
    Em menos de 6 meses o governo queimou 200BI (sim, 200) de reais com SWAP cambial.
    É de lascar.
    Sucesso e força, meu querido!!
    Abs!

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    1. Olá IM, pois é, no início era uma doença que mal necessitava atenção. A operação para buscar os brasileiros na China não passou de marketing.
      Apesar de eu achar que devemos ter uma política econômica mais liberal do que temos historicamente, tenho achado a gestão Guedes um desastre, simplesmente estão perdidos e as coisas não andam. Reforma tributária não tem pé nem cabeça com a nova CPMF. Outras reformas, como administrativa, privatizações, etc, não saem do papel (ou quando saem, são tímidas). Até a reforma da previdência, tão comemorada (e que eu era a favor), foi mais obra do congresso do que do executivo (o presidente cansou de jogar contra).
      Se a economia é um desastre, a ala ideológica, que inclui o presidente, são piores ainda, e só trazem retrocessos ao nosso país.
      Quando vejo Putin governando a Russia por mais de 25 anos, tenho calafrios só de pensar quais seriam os planos do nosso atual mandatário por aqui.
      Abraços

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    2. Cara, lembrei do Putin hj e vc falou dele.
      E meu pensamento foi: "o sonho do bolsonaro é ser o putin. Mas ele é burro". Putin é inteligente e tem se aproximado da europa mesmo com algumas divergências. E a miséria impera na Rússia (tenho conhecimento próximo disso). Privatizações para amigos do rei e povo sendo sugado.
      Meu medo é 2022.
      Mal percebem: estamos venezuelando.

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    3. Exatamente IM, o problema é que as mudanças são feitas aos poucos, e não notamos imediatamente o conjunto das mudanças. Até que de repente notamos que a soma das pequenas mudanças ao longo do tempo representa uma mudança radical que não foi percebida.

      Me lembra um trecho do livro "Um Cavalheiro em Moscou" que fala justamente sobre as mudanças ocorridas na Russia após a revolução russa no início do século passado. Foi uma das partes mais marcantes do livro para mim. Segue o trecho:

      "Para a maioria de nós, o final dos anos 1920 não foi caracterizado por uma série de acontecimentos cruciais. Pelo contrário, a passagem daqueles anos foi como o giro de um caleidoscópio. No fundo cilíndrico de um caleidoscópio ficam cacos de vidro coloridos em arranjo aleatório; mas, graças a um facho de luz solar, à interação dos espelhos e à magia da simetria, quando se olha para dentro, o que se encontra é um padrão tão colorido, tão perfeitamente intrincado, que parece ter sido projetado com extremo cuidado. Em seguida, ao menor giro do pulso, os fragmentos começam a mudar e se estabelecem em uma nova configuração - uma configuração com sua própria simetria de formas, sua própria complexidade de cores, seus próprios toques de arte"

      Isso se aplica para qualquer modelo de implantação de regimes autoritários que querem se perpetuar no poder, seja de esquerda ou de direita.

      O lado bom é que, como você disse, parece que o mandatário aqui é burro, pois tenho a impressão que tenta fazer as mudanças todas de uma vez com seu discurso revolucionário, mas temos que ficar atentos.

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  3. Reflexões sensatas e necessárias. De liberal não há nada nesse bando de loucos. Economicamente são um desastre. A tal reforma tributária simplesmente nunca aparece, ninguém sabe o que é, ficam só falando sobre ela, sem nunca apresentar nada, além de uma CPMF. A reforma administrativa é uma piada, só vai piorar o serviço público brasileiro, vai ferrar com a imensa maioria dos funcionários que ganham salários razoáveis e vai deixar intocados os caras que ganham mais de 30k e têm trocentos pinduricalhos, essa imoralidade. E ideologicamente são um bando de aloprados, não tem outra definição.
    São qualquer coisa, menos liberais. Esse governo é uma mistura de Nicolás Maduro e Donald Trumpo.

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    1. Exatamente Anon, nada anda do ponto de vista econômico e de reformas, com exceção das narrativas.
      A mudança começa com Trump perdendo a eleição nos EUA. Vamos ver. Abraços

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  4. Cuidado com a interpretação das razões entre medidas. Se olhar o parâmetro mortes por 1M de população, San Marino é o local mais perigoso do mundo!!!
    Em mortes por milhão o Brasil em décimo lugar, atrás da Bélgica, Chile, Reino Unido e Espanha (lembrando que o Brasil é o sexto país em população).
    Fonte: https://www.worldometers.info/coronavirus/

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    1. Anon, foi justamente isso que eu disse sobre San Marino, não devemos levar em consideração.
      Em ambos os parâmetros (número total de mortos ou mortos por milhão), nossa situação é péssima. No total, apesar de ser o sexto país em população, estamos em segundo. Já no quesito mortos por milhão, estar entre os 10 (ou 8, se desconsiderarmos San Marino e Andorra), também é péssimo, sobretudo quando passamos a Itália, até então um dos mais afetados e referência de onde nunca chegaríamos.
      Em comunicação há algumas semanas, o governo chegou a comemorar o fato de estarmos entre os melhores no parâmetro de mortos por milhão.
      Abraços

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  5. EI, Voce acha mesmo que a culpa é do presidente em tudo? Acha que tem como conter o virus ? O virus vai infectar quem tem que infectar pq nao existe vacina e nem tratamento. E ficar em casa igual a TV fala? Se o virus for igual ao HIV q ate hoje nao existe vacina? Vamos ficar em casa 30 anos para nao infectar? A grana q o PR liberou inicialmente era 200, depois 300 e finalizou em 600. Ajudou e ajuda muita gente. Nao sou totalmente a favor do PR, mas nao temos candidatoe deve ganhar em 2022. Quem destruiu o pais foi o PT e vamos demorar 20 anos para limpar os estragos. Na minha área, a medicina, o estrago do PT foi imensurável e vamos ver a medicina acabar nesta decada, todos sendo afetados. abs

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    1. Anon,
      Repare que em nenhum momento eu disse que acho que o PR "tenha culpa em tudo". Obviamente ele não é culpado por tudo cegamente, mas na minha opinião ele deve ser responsabilizado pela forma como lidou com o problema, desde as atitudes oficiais até as forma irresponsável e desrespeitosa como incitou a militância, inclusive com meias verdades (aka Fake News). A forma como ele e o governo a seu mando lidaram com a pandemia é desprezível e me envergonha profundamente.
      Formas como conter totalmente o vírus realmente não há, mas devem haver algumas mais eficientes que as que tomamos, sobretudo envolvendo comunicação adequada sobre a situação (ao invés de desinformação). Se tem uns 200 países em situação melhor do que a nossa (em mortes por milhão), é porque devem haver maneiras mais eficientes. Isso é perceptível por exemplo na forma como os países nórdicos lidaram e os resultados de cada um deles. Países semelhantes, tiveram resultados bem diferentes dependendo da forma como lidaram com a situação (exemplo Suécia x Noruega e Finlândia).
      Corrigindo sua informação, a grana que o PR propôs inicialmente foi R$ 200 e o congresso aumentou para R$ 600. Na ocasião o governo reclamou do aumento.Realmente ajudou e continua ajudando muita gente, tanto que a popularidade do PR aumentou e ele tem se aproveitado para mostrar o lado assistencialista de seu governo (assim como fez o PT, o que condeno e considero populismo barato, além de hipocrisia uma vez que ele sempre criticou isso).
      É triste não ter candidatos bons para 2022, mas na atual situação até os ruins podem ser melhores que a reeleição do atual.
      O governo do PT (Lula e Dilma) foram horríveis e quebraram o país! (ponto e não se discute). Isso é inegável, mas o que isso tem a ver para justificar os erros do governo atual e evitar críticas ao Bolsonaro? Esqueça o PT e avalie o governo Bolsonaro pelo que ele é e não pelo que ele não é (o PT). Dentre as pessoas do meu convívio, muitos justificam as defesas a Bolsonaro dizendo que o PT acabou com o país. Honestamente isso é uma visão centrada na narrativa bolsonarista de que o antecessor (e o adversário no segundo turno) era tão ruim que tudo é justificável. Eu discordo fortemente disso e vou continuar a criticar (ou elogiar) sempre pelo que for feito de bom ou ruim.
      Um abraço!

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