TSR que vai e TSR que vem

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Na semana passada eu publiquei uma postagem tratando de aspectos do meu momento atual de vida, falando de IF, FIRE, TSR e tudo mais.

Tivemos muitos comentários interessantes sobre vários aspectos, então resolvi voltar a escrever sobre alguns temas, sobretudo a TSR.

Em resumo, a TSR (Taxa Segura de Retirada) é o montante que pode ser retirado de forma segura periodicamente (normalmente medido em taxa anual), de uma determinado patrimônio investido a título de renda passiva, de maneira que o dinheiro nunca acabe (ou dure no longo prazo, por exemplo por 30 anos).


Minha ideia não é esgotar o tema da TSR, pois já existem muitas postagens e matérias sobre o tema. O objetivo do post é falar sobre como eu observo os riscos relacionados a TSR.

Muitos estudos baseados no mercado americano falam em TSR de 4% ao ano em um horizonte de 30 anos de aposentadora. Estes 4% significam aproximadamente 0,33% ao mês, de forma que alguém que tenha 1 milhão de dólares em capital investido no mercado americano pode, supostamente, fazer retiradas de 3.300 dólares por mês de maneira a garantir a aposentadoria vitalícia.

Já no mercado brasileiro, o buraco é mais embaixo. Se por um lado as taxas de juros são mais altas, portanto a rentabilidade líquida é maior, por outro a volatilidade e os riscos são mais altos, o que faz com que você tenha a chance de sucesso impactada. É difícil fazer um estudo absolutamente preciso sobre as condições brasileiras, pois qualquer estudo toma como base dados históricos ou premissas que tem grande chance de não serem verdadeiras. Pensando em todas as mudanças que tivemos no cenário econômico nos últimos 20, 30 ou 40 anos, é de se pensar que dificilmente conseguiremos prever o cenário brasileiro nos próximos 30 anos.

Considerando isso, há alguns anos (por volta de 2012), estabeleci uma meta baseada em uma taxa de retirada de 4% ao ano, afinal o mercado pagava juros médios de aproximadamente 6% ao ano mais IPCA, ou seja, descontado o imposto de renda, ainda era relativamente fácil obter rentabilidade real acima dos 4% (4% é inclusive a minha meta de rentabilidade real no longo prazo).

Sendo assim, como era relativamente simples ter uma rentabilidade real de 4% ao ano, ao realizar retiradas da ordem de 4%, o patrimônio estaria protegido contra a inflação e teria duração eterna. O fato é que o cenário mudou mais uma vez, e agora estamos vendo a renda fixa pagando não mais de que 1,5% a 2,5% de rentabilidade real (descontando impostos e inflação), o que altera os cálculos da TSR. Por outro lado, obriga o investidor a tomar mais riscos (por exemplo aumentando a porção em renda variável) para buscar uma rentabilidade superior e tentar se aproximar dos 3% ou quem sabe 4%.

Na verdade eu já considero que, para um patrimônio grande, de alguém independente financeiramente, 4% a.a. real é alto demais, quase utópico! Isso me faz alterar os manetes das premissas para uma rentabilidade real média esperada de no máximo 3% ao ano nos próximos 15 ou 20 anos (depois disso não dá nem para imaginar).

Além de tudo isso, um patrimônio com boa parte em renda variável, como o meu (cerca de 20%), e mais outro tanto (cerca de 30%) em renda fixa pré-fixada (IPCA+), tem que levar em conta que neste momento de bull market brasileiro e queda de juros, o patrimônio chegou em um nível irreal (ou não) e está bombado com uma rentabilidade recente muito alta. A menos que eu liquide as posições em RV e IPCA+ e vá para a SELIC, o patrimônio pode cair 10% ou 15% com apenas uma correção de rumos do mercado de juros longos ou RV, o que faria aumentar TSR para 4,4% ou 4,6%, no caso de aposentadoria com o portfolio atual.

Considerando todos este fatores, apesar de já me considerar independente financeiramente (pelo menos pensando nas minhas metas estabelecidas no passado), por uma questão de segurança e mudanças no cenário, continuarei trabalhando para aumentar o patrimônio de forma real (não bombado como está agora) e também para que este me proporcione uma TSR de 3% a.a., o que seguramente teria duração eterna quando eliminados alguns riscos sistêmicos como venezuelização do país ou outros cisnes negros que podem aparecer. (obviamente não é possível eliminar TODOS os riscos!).

Lembrando que já direcionei uma parte dos meus investimentos para criar uma proteção para o caso venezuelização, como explicado neste post Brazil: Buy or Sell em que detalhe um pouco mais sobre meus investimentos no exterior.

E aí, o que pensa sobre TSR, quais são seus planos?

8 comentários

  1. EI,

    De fato em 6 meses o panorama de investimentos mudou de forma brutal aqui no Brasil. A percepção de risco caiu muito e em sintonia os yields também caíram. Para se alcançar uma rentabilidade não há escapatória: deve-se procurar ativos com mais riscos e manter uma diversificação extensa por conta da volatilidade que você mencionou. Por outro lado, ao menos aqui no Brasil ainda se consegue na renda fixa um retorno real de 3% a.a., sendo que nos EUA se consegue 1% e na Europa 0%, então ainda temos essa vantagem.

    Dado o valuation atual não acho que as ações no exterior e aqui estejam caras. Sigo comprando nossas IWMO, IWQU, etc.

    Abs.,

    VR.

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    1. Grande VR, uma honra tê-lo por aqui.

      Realmente a mudança foi drástica em menos de 12 meses, imagina o que pode acontecer em 20 anos (pra melhor ou pra pior). O importante é ter um plano conservador o suficiente para sobreviver aos sobressaltos e, por outro lado, que possa ser ter flexibilidade para ir se adaptando (dançando conforme a música). A palavra é mesmo diversificação, como você mesmo ressaltou. Com uma boa diversificação, dá pra manter uma boa exposição e ao mesmo tempo se proteger. Eu atualmente tenho meu capital em diversificado em:

      20% RV
      7% atrelado ao câmbio (exterior, espécie e IVVB11)
      25% CDI (LFT)
      30% RF (NTN-B, NTN-F)
      18% Previdencia (planos corporativos de empresas que trabalhei e plano que criei para as filhas, como planejamento sucessório)

      Tenho imóveis e outros investimentos em negócios que não estão nesta conta.

      A ideia é realmente aumentar a porção no exterior, sendo que lá tenho um target de 40% em RF e 60% em RV. Independentemente de valuation, só o fato de estar em dólar já me tranquiliza.

      Hoje mesmo já fiz uma remessa logo pela manhã quando chegou em 3,75 o dólar. Tenho feito 2 ou 3 remessas por mês desde o início do ano.

      Abraços!

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  2. Se vc considera que seu patrimônio está inflado artificialmente, por que não retirar a parte inflada para aí sim tornar seu patrimônio real?

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    1. M1M, fiquei procurando palavras para descrever o momento quando estava escrevendo o post e não me veio a cabeça o termo "inflado artificialmente", rs. Este é o termo correto!

      O questionamento que faço é este mesmo, porque não tirar a parte inflada e tornar real?

      Mas tirar e colocar onde? Apesar de inflado, eu não gostaria de alterar a exposição ao risco e diversificação, como expliquei ao VR aí acima, então é complicado tomar uma decisão.

      Eu cheguei a liquidar uns títulos NTN-B 2035 no início de junho. Pensei em fazer novamente agora, mas não vejo muito onde colocar. O que estou fazendo é alocar novos aportes em opções mais conservadoras (LFT e cambio/exterior).

      Sem contar que a realocação em massa do capital implica em custos, antecipação de IR, etc.

      Por enquanto vai assim, mas estou considerando as possibilidades.

      Abraços

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  3. Oi, Ei, tudo bom? Tenho lido os últimos posts. Posso fazer algumas críticas?


    De vez em quando você escreve alguns textos absurdos, como um que relatava seu medo por ter GANHO dinheiro com uma alta da VALe. Olha, se sua regra é ter 20% em ações e esses 20 se transformaram em 30% do seu patrimônio, é só vender os 10% que extrapolam. Lucros devem ser comemorados!!!!!

    Se você quer entrar no mercado americano, por que não comprar bons reits americanos? Terá renda mensal em dólar.

    Você já deve ter muito mais que 1 M aqui no Brasil. Por que querer trabalhar ? Que tal fazer uma especialização em mercado de capitais e montar um fundo para para você e suas filhas.

    A impressão que passa é que você leu muito pouco sobre análise fundamentalista e alocação de ativos. Leia os livros do Paulo Portinho, Bastter, Anderson Lueders. Eles ensinam muito a respeito de bolsa de valores e investimentos em geral.

    Sobre o último post, ensine investimentos a suas filhas. Trabalhei em hospital por anos, posso dizer que mais de 90% dos médicos são ANALFABETOS FINANCEIROS. Se conhecerem um cdb já é um fenômeno. Muitos arriscam a vida fazendo diversos plantões para pagar carros e apartamentos financiados.Burrice simplesmente.

    Por fim, num país como o Brasil, um milionário que só reclama parece algo beeeeem bobo. Preocupe-se em aumentar seus lucros, reinvestir os dividendos.

    Que tal morar numa cidade mais barata para aportar mais forte?

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    1. Fala Anon, críticas são bem-vindas, sem dúvidas!

      Achei interessante seu comentário e vou observar melhor, mas entenda que o blog, que tem característica de registro histórico e cada postagem é feita com base no sentimento do momento, portanto muitas vezes, ao ler uma postagem antiga, você (ou eu mesmo), podemos não estar levando em consideração o que se passava no momento, o que leva a pensar que a postagem (ou a atitude descrita) não sejam condizentes com o pensamento atual.

      Eu não tenho nenhum problema em comemorar os ganhos, mas eu tenho pés no chão e tenho o sentimento que alguns ganhos são artificiais, o que aumenta o risco da carteira. Mesmo assim procuro manter a minha exposição seguindo o plano.

      Eu li muitos livros, sobretudo de análise fundamentalista, como Graham, Siegel, Lynch, livros sobre Buffett e até mesmo do bastter, o grande problema é que nos livros e na teoria, tudo é fácil, mas quando você tem uma grana real alocada, as emoções são fortes e a dúvida sobre o que fazer deixa o sujeito muitas vezes paralisado ou em choque. Quando está ganhando, você não que perder o que já ganhou mas também não quer deixar de ganhar o que pode vir no futuro. Quando está perdendo não quer perder mais. A parte emocional nos investimentos é sem dúvida a mais complexa.

      O que posso dizer é que apesar de ter lido todos estes livros, o maior aprendizado tenho adquirido pela experiência de investimento em ações desde 2012 (e acumulo de patrimônio de forma amadora desde os anos 90).

      Não acho que dê para o sujeito parar de trabalhar com 1 milhão no Brasil, tenho um pouco mais ;) e mesmo assim ainda tenho dúvidas da hora certa de parar. Obviamente qualquer montante tem que estar relacionado ao nível de gastos/padrão e vida que deseja manter, então estou falando levando em consideração a minha situação.

      Sim, ensinar investimento para as filhas está nos planos. Elas são novas ainda, o importante neste momento é ensinar valores morais e éticos, com o tempo vou graduá-las em finanças.

      Interessante a sua observação sobre ser um reclamão, rs. Não me considero um e nem acho que as postagens tem este tom, mas acredito na sua visão e respeito. O fato é que no blog, tenho vontade de escrever quando algo está me afligindo, portanto pode ser que as postagens tenham uma conotação relacionada.

      Sobre morar em uma cidade mais barata, está nos planos, mas num momento futuro. O problema é que inevitavelmente haveria redução da renda, uma vez que esta é compatível com o custo de vida no local.

      Um abraço

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    2. Comprar REITS é uma ideia boa do ANon. Ter renda mensal em dólar é interessante financeira e economicamente.

      Com a internet podemos investir no mundo todo, não é preciso ficar preso a um só país. Sempre vai haver alguma ação no mundo pagando bons dividendos.

      Acredito que cidades pequenas são ótimas para se gastar menos com IPTU, seguro de carro, compras de supermercado etc.

      Quanto menores os custos, maiores os lucros.

      Abs.

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    3. até onde sei os REITs, assim como ações, que pagam dividendos, tem incidência de IR no pagamento dos dividendos. Tenho investido em ETFs de acumulação por este motivo.
      Realmente viver no interior tem um custo infinitamente inferior a capital, é uma opção válida, de alta qualidade de vida e baixo custo, só tem que escolher bem o local.
      Abraços

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